Quem nos quer

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Aquele gosto amargo no final do doce...

Billie Holyday cantava um blues e seu pensamento vagava por alguma parte do ultimo dialogo que teve com ela.
Sorveu um gole do cappuccino preparado numa xícara de chá.
Era um habito novo esse de tomar cappuccino. Por isso a xícara ao invés da caneca de porcelana como na casa dela, ou numa bela xícara inglesa como as que servem no café onde ela costuma marcar seus encontros.
Também era novidade o Blues e Billie Holiday.
Assim como era novo e delicoisamente inesperado tudo o que acontecia em sua mente. Billie Holiday rasgava-se num blues e seu pensamento vagava em alguma parte do corpo dela.
Sorriu, sorveu outro gole do cappuccino que ele mesmo preparou com a receita que ela deixou. E deixou tantas outras coisas...
Deixou-se inebriar pelo vapor que saia da xícara de chá diretamente em seu rosto. Em seus olhos, parecia a neblina de seus pensamentos.
O aroma não era o mesmo. Claro que não era...
“Tudo o que ela fazia tinha um aroma, um sabor diferente”, e não pensava apenas no café.
“O amor é mesmo muito engraçado”.
Num momento ele estava ali paquerando aquela garota de calça jeans e olhos claros, mas ela não lhe deu muita bola.
Enquanto se recuperava do fora que havia levado viu refletido em outros olhos seu sorriso.
Terá sido naquele momento?
Impossível imaginar que apenas aquele olhar no meio de tanta gente, naquela multidão... Um simples olhar teria desencadeado todas aquelas sensações.
E agora ele estava ali jogado naquele sofá bebendo cappuccino e ouvindo “I only have eyes for you”, na voz de uma tal Billie Holyday que canta totalmente fora do ritmo da musica, mesmo assim com tamanha harmonia.
E mesmo sem saber uma palavra em inglês, já havia eleito “It have to be you”, a musica para embalar aquele romance tão recente. Tão intenso.
Intenso como seu primeiro beijo lá mesmo no meio da multidão. E tudo parou naquele instante, naquele breve instante. E todas as vozes cessaram e até aquela chuvinha fina que caia fria, parou.
Durou um minuto ou dois não mais. Seu coração deslizava e saltava, e tudo o que ele sentiu e ouviu o resto da noite só vinha dela. Do sorriso dela. Do perfume dela.
Do hálito de café, halls preto, chocalate e a goiaba do batom, tudo misturado e em perfeita sintonia. É assim que quer lembra para sempre dela...
A única coisa de que não conseguia lembrar era qual a primeira música que eles dançaram naquela noite. “Oras, foram tantas”, ela dizia com aquela risada de barulhinho bom. Ela também não se lembrava. Talvez não se lembrasse de nada. Talvez não tenha sido tão especial...
Billie Holyday cantava um triste blues e ele pensava em seu ultimo beijo.
Todos aqueles novo hábitos, todas aquelas coisas que se tornaram imprescindíveis para ele em tão poucas semanas... Dava para contar os dias, as horas. Tudo tão breve.
Tomou outro gole do café misturado com chocolate e mente. E dessa vez sem saborear. Mesmo assim sentiu aquele amargor no fim da língua, aquele que insiste em permanecer depois que se bebe algo doce.
E lembrou-se daquele dia em seu apartamento em que a viu chorar pela primeira vez.
Era um filme triste de final infeliz. Sabiam disso mesmo assim ela insistiu em ver “os melhores filmes são tristes meu bem”, ela dizia e sempre sorria. Foi nessa hora que ele percebeu que era um sorriso triste, mas não disse nada.
Nos créditos finais do filme ela o abraçou forte e fungando deixou uma lágrima rolar e molhar o ombro dele.
‘“Ao menos uma vez eu queria que alguém me amasse daquele jeito”, ela disse com a voz engasgada.
Sentiu que aquela era a sua deixa. Ele diria, teve aquele impulso de dizer “eu amo!”, mas veio uma insegurança, uma secura na garganta... “Mais vinho, eu preciso de mais vinho”, ela desconversou.
Conheciam-se há tão pouco tempo, “como poderia ser amor?”.
Ela olhava para a janela com o olhar perdido. Levantou-se num solavanco. Parou na frente dele balançado o corpo convidando-o para dançar. Ele a abraçou e deitou sua cabeça no ombro dela. E seus pensamentos se embaralhavam, “que se dane o tempo”, ele a amava e tinha que dizer. Ensaiava a frase da melhor forma, poderia dizer ali mesmo, diria no ouvido dela e a beijaria.
“Eu te amo”, “Eu te amo”, “Eu te amo”... a frase não saia de sua cabeça. Diria. Diária agora.
- Eu..
- Eu vou embora amanhã. Ela o olhava tristes, era uma despedida.
Ele não disse nada. Fez a pior coisa que pensou. Levantou-se, catou suas roupas e saiu.
Foi a ultima vez que a viu. Se sentiu traído. Sentiu-se deixado.
Billie Holyday cantava um Blues, o cappuccino esfriou. Nada nessa sala tem a presença dela.
Poderia gritar um imenso “EU TE AMO”, e só o eco da parede responderia.
Tinha a sensação de que até os móveis da sala zombavam dele. O sofá sorria, a mesa e as cadeiras todos sabiam... Menos ela.
Suspirou, deu uma leve olhada para a poltrona como se fosse dizer-lhe alguma coisa.
A poltrona fingiu não perceber então ele não disse nada...

Flor

5 comentários:

Bia Ferreira disse...

RECADO PARA LILA E EU ESPERO QUE ELA APAREÇA POR AQUI: NÃO TENHO SEU EMAIL, E NÃO DÁ PRA COMENTAR NA MERDA DAQUELE SEU BLOG (QUE TÁ LONGE DE SER UMA MERDA).
PORRA QUE TEXTO BACANA!!!!!!!!!!

Migule disse...

Não é a Lila não.. Miguel serve?
até que enfim uma história de amor aqui né, vc parece que tá atacada esses dias.. kkkk
Lindo conto com final infeliz..

Natália disse...

Lindo conto!! vc tem muito talento!

Marcia Barbieri disse...

Adorei,adoro contos com trilha sonora e tb gosto de finais infelizes.


espero que voltes!!!

beijos

Devir disse...

Voce, toda pessoa menos eu, precisa nomear a segunda coisa que
seja essencial para viver depois do sexo, para não ficar o lugar que se vive amontoado de tranqueiras e traquinagens.
Na minha primeira vez, faz vinte anos, a menina tinha uma bolsa que quase servia de colchão, e tudo era motivo para transar. Todos os filmes eram bons para transar; todos os inténs que concorriam ao tal do oscar, toda fofoca do elenco, determinado famoso(?) que ela via, até o tempêro da pipoca na saída e a velocidade que eu impunha ao fenõmeno ao voltar para casa dela. Todas as vezes, ela juntava tudo para fazer aquele sexo mooonstro de sempre.
A última vez, foi com a enfermeira que conheci depois da penúltima. Eu fui parar no hospital e a Claudia, enfermeira noturna, pensando que estava dormindo, acariciou meu pau; maldito fica duro a noite inteira. Então, precisando recuperar-me, não dormia, e os exames cada vez piores.
Percebe, como o lugar da segunda coisa essencial para se viver é um amontoado de sugestões, participações, exigências, quase um fardo inútil na vida?