Quem nos quer

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Sob medida..

E aquele jeito que você olha no olho dela e parece estar interessado em tudo o que ela diz, atento a todos os gestos, embasbacado com toda beleza, seduzido e aterrorizado com o tamanho do seu amor...
Esse amor, esse medo, esse olhar... deviam ser meus.
E só você não percebe que nos merecemos, que nós não prestamos,que  somos inconstantes e egoístas e que vamos partir muitos corações até você me dar aquele olhar e aquele medo e aquele amor...
Tem que ser minha essa dor...

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Acasos predestinados...


Olharam-se com estranhamento. Ela arqueou as sobrancelhas e deu um leve sorriso de surpresa. Ele olhou para ela encabulado. Sorriu timidamente e desviou o olhar.
Não era possível, a quarta vez naquela semana!Ah sim, sua vida era mesmo cheia de coincidências. Às vezes cantarolava uma música qualquer no pensamento e quando ligava o rádio ela estava tocando. Às vezes pensava em alguém e ele aparecia. É claro, nem sempre fisicamente, às vezes recebia um telefonema ou e-mail. No mínimo sentia o cheiro de alguém pra dias depois descobrir que a pessoa também pensava nela no mesmo instante. Ah sim, sua vida era cheia de pequenas coincidências. Como a chuva que cai sempre que chora.
O que poderia fazer? “Oi, tudo bem, você já reparou que essa é a quarta vez que nos encontramos nessa semana?”, ah isso seria patético. Patético!
Certamente ele pensaria que era uma cantada barata. De certo que era uma cantada barata.
Patético! Já estava apaixonada? Apaixonada por um cara com quem nunca falou. Apaixonada por um sorriso tímido e um olhar de surpresa. Por que será que sempre se apaixona por esses tipos? Daí vem a dúvida em sua cabeça: que tipos? Esse tipos, músicos frustrados, escritores atormentados, estranhos solitários... Sempre se apaixona por esses tipos...
Pelo menos ele parecia perceber as coincidências também.
Talvez ele a estivesse seguindo, talvez fosse um maníaco, um seqüestrador esperando a hora certa para agir. Um beco escuro, uma viela... Ah, quanta besteira pode passar pela cabeça de uma pessoa na fila do banco? Então recapitulando: Eles freqüentam a mesma livraria. Vão ao cinema sozinhos para ver filmes europeus. Tomam o mesmo tipo de capuccino mentolado no mesmo café do centro da cidade. E agora o mesmo banco.
Os mesmo gostos. Que engraçado! A mesma solidão. Que triste! Talvez fossem feitos um para o outro. Ah sim, viveriam um grande amor, contariam essa história para seus filhos e netos, “Sim, foi lindo, nos olhamos naquela fila de banco e descobrimos mutuamente que estávamos predestinados. Tudo conspirava para que nos conhecêssemos!”. Ah, quanta bobagem! Ora controle-se mulher! Onde ela pôs mesmo dinheiro? Ah sim, no bolso lateral. Odeia bancos!
E se ela o estivesse seguindo? Por que não conseguia esquecê-lo? Alô querida, vamos cuidar da própria vida? Provavelmente ele é casado, ou gay, ou as duas coisas. Ou um escritor atormentado, frustrado e vai transferir toda sua melancolia para ela e depois deixá-la... Todos sempre a deixam... É isso, exatamente isso o que vai acontecer. Ah, que horror, concentra-se criatura! Cadê o inferno do cheque?
Pior, e se ele achasse mesmo que ela o estava seguindo? Melhor não olhar muito. É isso, melhor olhar para o chão, fingir que não o vira. Ai que vergonha, ele deve estar pensando que ela é uma dessas doidas solitárias que fica seguindo os outros por aí.
Mas espera, e quanto ao fato de estar apaixonada? Mais uma paixão platônica? E daí, já teve tantas... Oras, talvez pudessem ser amigos. Ir à livraria, ao cinema e tomar café juntos. Por que não? Se não fosse tão cética até poderia acreditar que os dois estavam predestinados mesmo. Tantas coincidências... Oras quanta besteira, besteira, “besteira”, quase berrou. Levou um susto quando ouviu sua própria voz. Todos a olharam. Ela recolheu-se ainda mais. Abaixou a cabeça, olhou para os pés. Deixou que o cabelo lhe cobrisse mais o rosto e agarrou-se a pasta de arquivos. Olhava para os pés. Os pés dele. Devia calçar 42, era alto. E bonito. Tarada! Que loucura, flertar com um desconhecido na fila do banco. Como assim flertar? Sequer olhava diretamente para ele... Sequer sabia flertar. Patética, “Patética!”. Dessa vez falou bem alto. Algumas pessoas riram. Ele a olhou surpreso no exato momento em que ela conferia pra ver se ele não estava olhando. Seus olhos se encontraram ante aquele constrangimento. Ela sentiu seu rosto quente. Sabia, estava corando. Não agora não! Tarde, devia estar parecendo um tomate. E ele ainda olhava para ela. Olhava disfarçadamente, mas olhava. Ela sentiu que ia chorar. Que idiota, que motivos teria para chorar? Vários na verdade. Mas não ali, não naquela hora. Ah por favor não. Controle-se! Tarde, seus olhos lacrimejavam. Mas não chorou. Não ali.
- Próximo.
Próximo. A palavra entrou vaga em sua mente. Alguém a cutucou.
- É a sua vez.
Ela sorriu.
- Obrigada!
Era isso, em alguns instantes sua conta estaria paga. Ela sairia do banco e... E o que? Com certeza eles ficariam se encontrando pela cidade até um finalmente falar com o outro. Seria assim. Eles se olhariam e sorririam e diriam-se apenas um “Olá”, e passariam...
Ou talvez não. Talvez nunca se falassem. Talvez nunca mais se vissem. Essa deve ter sido sua ultima chance ela a desperdiçou corando como um caqui.
Ah, talvez fosse melhor assim. Melhor não conhecê-lo, para que? Tem uma vida tão chata, com certeza o entediaria. Melhor manter o mistério. Transformá-lo numa boa lembrança. Num devaneio para suas tardes tediosas...
- Tenha um bom dia! A caixa lhe disse sorrindo.
Ela retribuiu o sorriso. Andou em direção à saída sem olhar para trás. Nem viu se ele ainda estava na fila.
Essas portas borboletas sempre a fazem lembrar de quando era criança. Ficava girando, girando, girando enquanto aguardava sua mãe. Era como se do outro lado houvesse um outro mundo igual a esse mas ao contrário, igualzinho ao mundo atrás do espelho do país das maravilhas de Alice. Humpty dumpty bem que poderia ser o gerente, gordo como um ovo sentado em sua cadeira como se fosse cair a qualquer momento.
Ela adorava ir ao banco, só para ficar girando na porta borboleta.
Nem se lembra de quando foi que começou a detestar bancos, mas ainda guardava um carinho especial pela porta borboleta.
- Oi, tudo bem, você já reparou que essa é a quarta vez que nos encontramos essa semana?
Ela sorriu...

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Se a vida lhe der pitangas....

Um sabor adocicado, levemente amargo e refrescante invadiu sua boca. Era de manhã e não havia nada para fazer a não ser contemplar as árvores frutíferas que pesavam em cores e cheiros diversos. 
No outono de 1999 esteve lá pela primeira vez. Parecia tudo igual. o mesmo balanço agora tomado pelo limo verde pendia no galho forte da velha mangueira. Aquela mesma mangueira onde ele havia entalhado suas iniciais e as daquela menina da escola.. "como era mesmo o nome dela?".
Naquela época, Julia havia terminado o ensino médio e viera passar as férias com ele. Sempre foram tão amigos, mas naquele verão algo mudou. Eles se olharam diferente enquanto tomavam banho na lagoa e logo um imenso amor eterno nasceu... Foi eterno por 3 anos. 
A dor por perder aquele grande amor ainda pairava suas lembranças, mas depois de Julia, ele já havia amado eternamente 3 ou 4 garotas...
Todas com tamanha intensidade que pareceram dilacerar seu coração de maneira irreparável, até não doer mais e ele novamente se ver perdidamente apaixonado.
Hoje seu coração apertava por Lara...
Tudo nesse quintal lembra Lara...
Levantou-se da cadeira de bambu e caminhou pela varanda de teto baixo. Acariciou os nós de algodão trançado que compunham a rede onde esteve com ela há alguns meses. 
Olhou ao redor e suas lembranças já meio turvas confundiam-se. Com Luíza ou com Lara havia corrido pelo pela varanda lateral imitando a cena do corredor em les et Jim. É engraçado como tudo parece se perder tão rápido...Teria sido com Ana o beijo embaixo da soleira?
Sorriu com o efêmero  do amor. Não que fosse volúvel, mas não conseguiu lembrar nenhum momento em sua vida em que não estivesse apaixonado ou irremediavelmente machucado com alguma relação. 
Nessa bagunça de lembranças e emoções concluiu que aquela não era a primeira nem seria a ultima manhã embriagado com suco de pitanga, lagrimas e aquela ponta de esperança de que tudo passa...

Olhou o relógio, quase 8 horas... 
"Celma já vai chegar"...

...


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Carta aos amores que me deixaram...

"Rose, oh reiner widersprunch, Lust, Niemandes shafzu sien unter soviel lidern...''

Nem um pouco lisonjeada eu me sinto por ser a primeira mulher a lhe fazer chorar. Gostaria muito que fossem lágrimas de alegria, pois é a única coisa que um sentimento como o amor que lhe tenho, deveria causar. Não me fale de lágrimas, elas caem agora e caem sempre que penso que nunca mais estarei no seu olhar (e é um olhar que me causa tantas sensações)...
Amo-te ainda mais, não me condene por isso. Já havia, porém, me conformado com o lugar que ocupa em minha vida. É um amor platônico e inatingível como num conto Shakespeariano (por que nada melhor para separar o amor, do que as próprias pessoas, não há nada de sobrenatural em finais tão infelizes).
A cada dia sinto mais a sua falta, a cada dia quero mais o seu cheiro, o seu gosto a sua pele, sinto-me triste. Teu silêncio me dilacera. Mas creio que sou mais forte do que pensava ser, estou indo bem até agora sem você (esmorecendo às vezes, mas a tez sempre resplandece um sorriso sossegado, afinal, é apenas para mim a minha melancolia). Carrego-te junto a mim em meus pensamentos e sonhos, em um mundo paralelo e alheio aos meus devaneios. Oras, nada disso depende necessariamente do fato de você me corresponder ou não. Sinto-me até mais triste por saber que sofres também, agora sofro com o teu sofrimento.
Se quer me esquecer meu amor, vá em frente. Já fizeste tuas escolhas e eu já esperava não fazer parte delas, sigo amando você e as lembranças que são tão poucas e a cada dia tornam-se mais vagas.
É involuntário que tenho a sensação de que serei sempre sua, talvez nem o seja, oras quantas vezes pode-se amar na vida? Mas guardo-te com todo carinho.
Entristece-me ver um sentimento tão bom e jovem morrendo assim aos poucos, sem sequer brotar direito, mas há muito já havia perdido as esperanças de tê-lo. Sou impulsiva, às vezes não controlo minhas ações, mesmo decidida a deixar-te em paz, não controlo impulsos fortes de te ligar, ir procurá-lo... Quando te liguei foi num ímpeto louco de ouvir tua voz.  Eu precisava tanto, ah como eu precisava ter pelo menos um pedacinho de você... Não posso prometer que tenha sido a ultima vez, mas tentarei fazer a vontade que você me demonstra, tentarei ignorar a força que me atrai para ti.
Meu menino não entendo, sinceramente não entendo suas razões, nunca pedi para que abandonasse qualquer coisa por mim, nem acho que haja a necessidade de medidas tão drásticas, muito pelo contrário me contentava em apenas fazer parte dessa sua vida tão complicada (pelo menos é o que você faz parecer). Seria bom, ser para você um refugio, um lugar onde você sossega a alma (a sua liberdade, mas pra que tanta liberdade? Eu seria apenas uma gota quando você precisasse). Por que deveria desistir de qualquer coisa, se pode ter tudo?
 Perdoe-me, mas não consigo afastar de meus pensamentos uma pontinha de desconfiança em tuas palavras de consolo. É como disse uma vez à você, e agora você não me decepciona agindo exatamente como eu esperava.
Estou triste, por que o amor que te reservo é tão bonito e me trouxe tanta alegria quando o senti brotar aqui dentro de mim, é uma pena ele ter se transformado em tantas lágrimas, em tantas dúvidas, em tanto descontentamento.
Não o julgo covarde, acho que não me quer e é só. Se me quisesse tanto quanto eu te quero, sequer verias barreiras, mas sei que exerço em você nada mais que uma forte atração e isso não é suficiente para você mesmo. Não o julgo, também não me daria ao trabalho.   Se me amasse como te amo meu (ah, se amasse...) não se importaria com nenhum desses empecilhos como eu não me importo, teria a mesma esperança que eu já cheguei a ter. A esperança de fazer parte do seu coração, de ser sua por inteiro. Você me julga muito mal e acha que eu seria capaz de impor a você qualquer escolha, ainda mais uma tão importante. Como poderia ser sua liberdade te privando de seus brios, de sua boa conduta, e até de suas limitações?
Eu o quero, o quero muito, mas não quero forçá-lo a nada. Não quero que se arrependa por nada, como eu nunca me arrependo...
Ah sim, como me sufoca a falta que me faz nossas noites de amor (ou sexo, como queira, mas separo bem as coisas), se soubesse o quanto o desejo, o quanto sou impulsiva a ir ao teu encontro só para deixar-te possuir-me nem que apenas por uma ultima noite, como numa música que diz "me abrace, me beije, me ame e depois me mande embora, que eu vou feliz da vida, amor"... Pelo menos teria mais do que alimentar meus devaneios. Saberia mais uma vez  qual o teu gosto e os cheiros que exalam o teu prazer e os sons e as cócegas benignas que tua voz me faz ao ouvido. Sinto-me tão tola por pensar assim. Sinto-me tão tola por me entregar dessa forma a alguém que me dá certeza que não me corresponde. Mas o que posso fazer, sempre que fecho os olhos você está aqui. Devo deixar de ouvir Billie Holiday, deixar de ler suas palavras no café e decifrar cada palavra como se fossem dirigidas a mim, devo parar de beber café? Não há o que fazer, se você já está tão impregnado em mim, se já associo tudo o que gosto a você. Antes de dormir eu te digo boa noite. E às vezes sonho com a tua voz macia me dizendo que me adora, adora a mim, a tua boneca, a tua...
 Mas quem disse que o amor é recíproco?  Se foi você mesmo quem me disse que "um sempre ama mais que o outro, é impossível encontrar a sintonia".
Você apenas desistiu de mim, desistiu por encontrar um obstáculo, preferiu dar meia volta. Não se preocupe, não me magoou, feriu-me superficialmente, até por que eu já estava bem preparada para tudo, para a dor...(lembre-se que mesmo acreditando em tudo o que me dizem, eu sempre espero o pior de todos, é assim que não me decepciono).
Essa se tornou uma carta muito longa, talvez eu corte algumas arestas... Talvez convenha apenas dizer que eu não desisto de você, não me arrependo te amar e esperar. Estarei aqui , sempre aqui se me quiser, mesmo que eu queira fazer o contrario, sou o que sinto e não há nada que eu possa fazer para deixar de te querer e de querer somente você. Não me fale em amor próprio, ah sim o tenho, mas também sou alheia ao meu coração, sou alheia ao bel prazer do meu amor. Nada tenho a fazer a não ser me entregar como vassala ao destino.
Se quer o meu silêncio meu amor, você o terá, terá de mim o que quiser, sempre... Terá o meu abraço se decidir voltar atrás, terá o meu corpo se apenas me desejar, terá a minha alma basta vir buscar...

Amo-te tanto e como ultimo suspiro peço-te, por favor, não me deixes...


PS: A tradução do poema de Rilke:
"Rosa, oh contradição pura, desejo de ser sono de ninguém sobre tantas pálpebras"


quarta-feira, 14 de maio de 2014

Conto de memória

Em minha infância éramos educadas para ser mocinhas comportadas. Saias com short por debaixo e bustiês para cobrir os seios insistentes. Afinal não queríamos dar margens à homens malvados que fazem "coisas" com meninas que não têm modos.
Aos 10 enquanto brincava de bola num terreno baldio conheci alguns desses homens malvados. Minhas amigas e eu corremos para o matagal que dava acesso ao campo mas fomos capturadas e molestadas. 
O short me protegeu e dificultou a acesso do meu agressor ao que ele de fato queria. Então ele apenas passou a mão e apertou meus inexistentes seios debaixo do meu bustiê e me soltou quando eu grite. Corri, chorrei por causa do susto. E me culpei. "O que eu queria brincando naquele lugar?".
É que somos educadas para não sermos vulneráveis ao estupro. Mas os homens não são educados para não estuprar. Então na minha lógica a culpa foi minha. Aquela era uma reação natural para qualquer homem que se visse com a oportunidade de pegar uma menininha. Eu é estava no lugar errado. Perigoso. Longe da vista de meus pais.
E assim também pensou minha mãe, pois assim que soube do acontecido me deu uma surra pra nunca mais.
Em minha infância éramos educadas para ser mocinhas comportadas... De tempos em tempos encontrava aquele homem e sentia vergonha e via ele se gabar com os olhos por já ter tido acesso ao meu corpo.
De tempos em tempos tinha que correr de outros opressores por estar no lugar errado, com a roupa errada, na hora errada. 
Aconteceu no fundo da igreja enquanto eu catava sebo de vela para passar na tábua de escorregar pela ladeira. Lembro dos dedos canoros daquele velho me segurando pelos braços e tentando me beijar. Mais uma vez escapei do meu destino iminente dando-lhe um chupe nos culhões.
Aconteceu alguns anos depois num beco, no carnaval...
Aconteceu tantas e tantas vezes. E sempre acontece em maior ou menor grau, de maneira grosseira ou mais sutil. Com toques sem autorização ou apenas palavras. Algumas até sem intenção de ferir. Cortejos, galanteios... 
Há alguns anos deixei de usar o short por debaixo da saia. E quando ouço um "gostosa" na rua me retraio e acelero o passo. Nunca sei se meu agressor vai se contentar em só dizer. Talvez ele queira provar também. 
Mesmo sabendo que a culpa não é minha, mesmo sabendo que eu não fiz nada para causar essa violência, o medo, a culpa me acompanham.. "eu devia estar de short", é meu primeiro pensamento.