Quem nos quer

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Acasos predestinados...


Olharam-se com estranhamento. Ela arqueou as sobrancelhas e deu um leve sorriso de surpresa. Ele olhou para ela encabulado. Sorriu timidamente e desviou o olhar.
Não era possível, a quarta vez naquela semana!Ah sim, sua vida era mesmo cheia de coincidências. Às vezes cantarolava uma música qualquer no pensamento e quando ligava o rádio ela estava tocando. Às vezes pensava em alguém e ele aparecia. É claro, nem sempre fisicamente, às vezes recebia um telefonema ou e-mail. No mínimo sentia o cheiro de alguém pra dias depois descobrir que a pessoa também pensava nela no mesmo instante. Ah sim, sua vida era cheia de pequenas coincidências. Como a chuva que cai sempre que chora.
O que poderia fazer? “Oi, tudo bem, você já reparou que essa é a quarta vez que nos encontramos nessa semana?”, ah isso seria patético. Patético!
Certamente ele pensaria que era uma cantada barata. De certo que era uma cantada barata.
Patético! Já estava apaixonada? Apaixonada por um cara com quem nunca falou. Apaixonada por um sorriso tímido e um olhar de surpresa. Por que será que sempre se apaixona por esses tipos? Daí vem a dúvida em sua cabeça: que tipos? Esse tipos, músicos frustrados, escritores atormentados, estranhos solitários... Sempre se apaixona por esses tipos...
Pelo menos ele parecia perceber as coincidências também.
Talvez ele a estivesse seguindo, talvez fosse um maníaco, um seqüestrador esperando a hora certa para agir. Um beco escuro, uma viela... Ah, quanta besteira pode passar pela cabeça de uma pessoa na fila do banco? Então recapitulando: Eles freqüentam a mesma livraria. Vão ao cinema sozinhos para ver filmes europeus. Tomam o mesmo tipo de capuccino mentolado no mesmo café do centro da cidade. E agora o mesmo banco.
Os mesmo gostos. Que engraçado! A mesma solidão. Que triste! Talvez fossem feitos um para o outro. Ah sim, viveriam um grande amor, contariam essa história para seus filhos e netos, “Sim, foi lindo, nos olhamos naquela fila de banco e descobrimos mutuamente que estávamos predestinados. Tudo conspirava para que nos conhecêssemos!”. Ah, quanta bobagem! Ora controle-se mulher! Onde ela pôs mesmo dinheiro? Ah sim, no bolso lateral. Odeia bancos!
E se ela o estivesse seguindo? Por que não conseguia esquecê-lo? Alô querida, vamos cuidar da própria vida? Provavelmente ele é casado, ou gay, ou as duas coisas. Ou um escritor atormentado, frustrado e vai transferir toda sua melancolia para ela e depois deixá-la... Todos sempre a deixam... É isso, exatamente isso o que vai acontecer. Ah, que horror, concentra-se criatura! Cadê o inferno do cheque?
Pior, e se ele achasse mesmo que ela o estava seguindo? Melhor não olhar muito. É isso, melhor olhar para o chão, fingir que não o vira. Ai que vergonha, ele deve estar pensando que ela é uma dessas doidas solitárias que fica seguindo os outros por aí.
Mas espera, e quanto ao fato de estar apaixonada? Mais uma paixão platônica? E daí, já teve tantas... Oras, talvez pudessem ser amigos. Ir à livraria, ao cinema e tomar café juntos. Por que não? Se não fosse tão cética até poderia acreditar que os dois estavam predestinados mesmo. Tantas coincidências... Oras quanta besteira, besteira, “besteira”, quase berrou. Levou um susto quando ouviu sua própria voz. Todos a olharam. Ela recolheu-se ainda mais. Abaixou a cabeça, olhou para os pés. Deixou que o cabelo lhe cobrisse mais o rosto e agarrou-se a pasta de arquivos. Olhava para os pés. Os pés dele. Devia calçar 42, era alto. E bonito. Tarada! Que loucura, flertar com um desconhecido na fila do banco. Como assim flertar? Sequer olhava diretamente para ele... Sequer sabia flertar. Patética, “Patética!”. Dessa vez falou bem alto. Algumas pessoas riram. Ele a olhou surpreso no exato momento em que ela conferia pra ver se ele não estava olhando. Seus olhos se encontraram ante aquele constrangimento. Ela sentiu seu rosto quente. Sabia, estava corando. Não agora não! Tarde, devia estar parecendo um tomate. E ele ainda olhava para ela. Olhava disfarçadamente, mas olhava. Ela sentiu que ia chorar. Que idiota, que motivos teria para chorar? Vários na verdade. Mas não ali, não naquela hora. Ah por favor não. Controle-se! Tarde, seus olhos lacrimejavam. Mas não chorou. Não ali.
- Próximo.
Próximo. A palavra entrou vaga em sua mente. Alguém a cutucou.
- É a sua vez.
Ela sorriu.
- Obrigada!
Era isso, em alguns instantes sua conta estaria paga. Ela sairia do banco e... E o que? Com certeza eles ficariam se encontrando pela cidade até um finalmente falar com o outro. Seria assim. Eles se olhariam e sorririam e diriam-se apenas um “Olá”, e passariam...
Ou talvez não. Talvez nunca se falassem. Talvez nunca mais se vissem. Essa deve ter sido sua ultima chance ela a desperdiçou corando como um caqui.
Ah, talvez fosse melhor assim. Melhor não conhecê-lo, para que? Tem uma vida tão chata, com certeza o entediaria. Melhor manter o mistério. Transformá-lo numa boa lembrança. Num devaneio para suas tardes tediosas...
- Tenha um bom dia! A caixa lhe disse sorrindo.
Ela retribuiu o sorriso. Andou em direção à saída sem olhar para trás. Nem viu se ele ainda estava na fila.
Essas portas borboletas sempre a fazem lembrar de quando era criança. Ficava girando, girando, girando enquanto aguardava sua mãe. Era como se do outro lado houvesse um outro mundo igual a esse mas ao contrário, igualzinho ao mundo atrás do espelho do país das maravilhas de Alice. Humpty dumpty bem que poderia ser o gerente, gordo como um ovo sentado em sua cadeira como se fosse cair a qualquer momento.
Ela adorava ir ao banco, só para ficar girando na porta borboleta.
Nem se lembra de quando foi que começou a detestar bancos, mas ainda guardava um carinho especial pela porta borboleta.
- Oi, tudo bem, você já reparou que essa é a quarta vez que nos encontramos essa semana?
Ela sorriu...

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