Quem nos quer

sábado, 9 de janeiro de 2010

Conto de verão... chá de cogumelos e outras iguarias

noite era shakespeariana de verão, na aldeia hippie, em Arembepe, no luau das quintas-feiras.
Tinha muitos amigos em volta de uma fogueira, um namorado punk de butique, uma amiga desbocada que queria ser gótica, mas era exageradamente grunge e sonhava ser prostituta, "Muito louca a Joey!". 

Tinha um diário de capa preta, os cabelos tingidos de azul e rosa, o rosto maculado por espinhas de debutante. Ela tinha uma camisa surrada do Led zeppelin  , um anel de caveira chamado Nick Cave, um duende de plástico de cabelo púrpura e espetado e uma boneca hippie chamada Pandora.
A mochila com os livros e a farda da escola, mas ela não pisou na escola aquela manhã, nem apareceu em casa à tarde, também não dormiria em sua cama naquela noite.
Ela tinha uma garrafa de vinho com ropinol, dez reais em moedas de cinco, dez e vinte e cinco centavos, conseguidas com pedágios na praça da Piedade e Passeio publico. Tinha a chave de casa num chaveiro de coração cor-de-rosa.

O céu de Arembepe é o mais estrelado que já vira, as ondas tem o canto mais harmônico que de qualquer outro lugar. Até os grilos, lá são mais afinados. 
O ano era 1999, e o mês, novembro. Nada aconteceria naquele posfácio de primavera.
E ela tomava chá de cogumelo em uma tigela de barro com gosto de terra molhada e cantava, alto e entorpecida, “Viva a sociedade alternativa”, de Raulzito e discutia, “Diário de um mago”, de Paulo Coelho – “É um lixo da bruxaria...”.

Chá de cogumelo é feito com cogumelos e outras substâncias que eu desconheço, e tem os mesmos efeitos alucinógenos do loló e da benzina e dá a mesma leseira da marijuana.
Joey, sua melhor amiga, não gostava do próprio nome “é comum demais”. Usava uma camisa grunge e queria dançar nua na areia. Ela tinha sono e ria, ria, ria... 

Preparavam-se para despir o Led zeppelin  e o Kurt Cobain. Ela o viu. Algo molhou sua fronte. Chuva ou ondas do mar?
Eram olhos furtivos, que seguiam todos os seus movimentos.  Ela sorria e dançava. Via-o por trás da fogueira. O flerte era inevitável.
Seus passos tornaram-se felinos, circulares movimentos de odalisca.  Era chuva, enfim. Apagou a fogueira. Levou as ilusões e todos dormiram.  Engraçado que nem tinha nuvens no céu...
...Os alucinógenos não têm esse nome por acaso... Sempre quando volto à Arembepe ouço as músicas marítimas e visito o coqueiro de olhos furtivos. 

7 comentários:

Luciana disse...

Adorei o conto.
Deu pra visualizar tudo graças aos detalhes.
Adoro luau,fogueira,violão,vinho,so não curto alucinógino(Quer dizer,uma marijuana muito raramente acontece.Mas não gosto muito,fico lerda ao cubo)
Tô precisando disso,de sair sem compromisso,de estar com pessoas sem compromisso,de esquecer que a vida é cheia de coisas chatas que precisam responsabilidade...

Valter disse...

Biazudaaaa, nem avisa mais quando atualiza né... porra!! vc é foda e eu te adoro, massa o conto.

Luciana disse...

Ah,tinha esquecido :

A sua foto ta linda.

Ferdi disse...

Ótimo conto, mesmo.

Giovanna disse...

luau é tão gostoso *-*
adoro aqui sabia, e adoro muito quando vc comenta no meu blog tbm, valeeu mesmo, heheh
pois é querida, tem sido difícil, mas quem sabe logo não passa e esse amo é concretizado ou algo do tipo?! ainda tenho fé, heheh

beijão ;*

Will disse...

Muito boa narrativa (muita, muita inveja =)

trebuchet ==> http://www.armaduras.com.br/projetos/proj001.php

Valeu a visita!

A.S. disse...

Bia...

É uma delicia ler-te!
Palavras que libertam e incendeiam num apelo sensual irreprimivel!

Beijossss
AL