Quem nos quer

sábado, 8 de agosto de 2009

Em má Compania >> capítulo II>> Aos 13

Como todo adolescente, eu era egocêntrica e rebelde. Minha vida era uma merda, mas não era tão ruim a ponto de me fazer cometer suicídio, nem eu teria essa coragem. Fora alguns cortes superficiais nos pulsos e a bebedeira convencional (nada convencional, eu diria) nunca tentei, de fato, a morte.
Eu tinha treze anos, era uma virgenzinha patética mas me achava o máximo.
Foi naquele dia, não lembro bem se era quinta ou sexta-feira.
Joey e eu estávamos no Passeio Publico olhando para os carros que passavam bem abaixo de nós. Estávamos sentadas na cobertura do Teatro vila Velha e tínhamos a visão de toda a Gamboa de cima, a de Baixo e o mar...

- O que você acha?
- Do que?
-De morrer?
- Sei lá, não morri ainda... acho que a gente morre acaba, então, nunca saberemos.
- Tô falando da gente pular daqui agora. O que você acha? Provavelmente a gente vai ter a sensação de voar por meio segundo e depois vai bater no chão com muita força...
- Nem. Provavelmente vamos cair em cima de algum carro e além de morrer vamos matar mais umas duas ou três pessoas...
- Ou então a gente cai no chão e depois um carro passa por cima da gente...
- É, tem essa possibilidade também...
- Você acha que a gente morre da queda ou do atropelamento?
- Sei lá...
- E aí, vai?
- Legal...
- Legal?
- Se você for eu vou ter que ir né...


Eu era muito corajosa naquela época, mesmo assim tive um frio na barriga por dizer aquilo. E tive medo que ela estivesse realmente falando sério.
Aos treze eu tinha pesadelos com o mar. Esses pesadelos me perseguem até hoje...
Sonho que entro na água na água morna de Ondina, quase flutuando.
Daí mergulho e é como se eu pudesse ficar debaixo d’água por horas sem respirar, ou talvez respirando sem perceber, como um peixe...
Daí me dou conta de que estou submersa e levo um susto e me falta o ar.
Então eu tento inutilmente emergir, mas uma camada grossa de gelo me prende. E logo eu estou sufocando em um caixão gelado.
Sempre soube que é assim que vou morrer. Presa, sufocada.
Naquela época tinha esse pesadelo de três a quatro vezes por semana, às vezes várias vezes na mesma noite. Sempre desse mesmo jeito. Às vezes até de forma consciente, sabendo que estava sonhando, mesmo assim acordava ofegante como se escapasse da morte mais uma vez...
Por causa desses presságios adquiri uma claustrofobia que me impede de entrar em elevadores...
Joey me olhou entre a duvida e a certeza.
Eu falava sério, ela não.
Ela tirou um maço de Royalle de menta da mochila, meu predileto. Fumamos três cigarros em silencio olhando o mar...
Eu olhava o mar e pensava em meus pesadelos...

Por Luisa Blue

7 comentários:

Migule disse...

Porra tava demorando pra vc publicar a Luisa Blue de novo... muito bom!!!
vc devia publicar os capitulos em ordem pragente poder ler como se fosse um livro

Migule disse...

Royalle???!!! n sabia q vc era dessa época.. kkkkkk hehe ahuahaahua

VALTER disse...

Que macabro...
cd as historias da GU????????

Carlos Medeiros disse...

Coisas da adolescência mesmo. Bom que sobreviveram. Abraços.

Clark disse...

fernando pessoa fez escola.

rs.

ótimo blog. tmb volto sempre. thanks pela visita.

Monjh - Senhor dos Muitos Nomes disse...

bacana.

Thiago Quintella disse...

Nossa pérfida covardia nos empurra para o suicídio. Sorte sermos um pouco corajosos nessas horas. O mar, que sempre respeitei, mas jamais o temi, aparece em meu inconsciente de vez em quando e de modo bizarro! Não devo ter feito a oferenda certa para Netuno o Posêidon.