Quem nos quer

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Balada do amor de Chico...

Foi como um estalo.

Chico teve uma idéia e uma lâmpada de luz amarela se acendeu sob sua cabeça. A lâmpada iluminou o deposito do almoxarifado. Chico era auxiliar de almoxarife. Nem todo mundo sabe o que faz um auxiliar de almoxarife, o Chico também não sabia quando leu o anuncio no jornal, mas achou melhor se oferecer para essa vaga já que também não falava inglês para ser operador de telemarketing, e com um nome tão difícil, Chico achou que isso era pré-requisito básico.
Chico não era muito de pensar, mas naquela tarde eve uma idéia.
Já trabalhava como auxiliar de almoxarife há cinco meses. Ganhava um salário mínimo, vale transporte e alguns plásticos com bolhinhas para passar o tempo na hora do almoço. Era um bom passatempo já que ele não podia ir para muito longe, pois só restava 15 minutos de descanso depois de comer a comida fria que ele trazia de casa e que não dava para requentar no escritório do almoxarifado pois o microondas estava quebrado há anos.
Há dias ele imaginava uma boa forma de chamar a atenção de Gilda, sua companheira de trabalho, secretária e recepcionista.
Ele sabia que Tonho, o cara da xérox, arrastava um bonde por ela. Mas esse já era carta fora do baralho. A própria Gilda dizia pra todas as freguesias que não se interessava por operadores de foto copiadoras. Além disso ela estava de caso mesmo era com o Maciel, supervisor de vendas. Maciel tinha carro, ganhava mais que todo mundo. Chico não, ainda andava de ônibus e morava com a mãe.
Chico não era muito de pensar, mas naqueles dias bem que estava gostando de pensar nas pernas de Gilda. Naquele cabelo loiro, naquele batom vermelho...
Mas ele sabia que era difícil competir com o Maciel. Homem culto, lia Zibia Gaspareto e algumas poesias. Gilda gostava dessas coisas, vivia suspirando pelos galãs dos folhetins que lia. Por isso, Chico decidira:
Escreveria uma carta de amor para Gilda. Uma carta sensível e apaixonada.
Apaixonado, Chico sabia que estava. Só faltava a parte do sensível. A ideia de jerico ele já teve, só faltava ter ideia de como escrever uma carta de amor.

Foi aí que eu entrei na dança. Caí de pára-quedas na história de Chico e Gilda, por que Chico só queria amar Gilda, e Gilda só queria alguém que a quisesse. Chico me procurou em casa pela minha fama de poeta.
Estava quase aos prantos. Não sabia bem o que me pedir. Só me pediu ajuda. Eu, que não podia ver um coração apaixonado tão aflito, decidi ajudar Chico a conquistar sua amada Gilda. Foi fácil, tirei da gaveta um de meus poemas, um que falava de flores e o amor de Gilda. Pus num belo envelope e Chico deu um jeito de fazer ele chegar a mesa da recepção da moça. Posso até imaginar a cara dela quando leu a declaração.
Toda mulher é curiosa, mas como eu podia imaginar que dentro daquele tubinho cor-de-rosa existia uma detetive nata? Depois da segunda carta, Gilda decidiu investigar. A ela não interessava amores platônicos. Queria ver a cara de quem a admirava. Poderia ser qualquer um, Gilda era a única mulher em toda a firma. Mas foi batata! Quando Chico escondeu a terceira carta debaixo do mouse do computador de Gilda, ela o descobriu. E de burra essa loira Gilda não tem nada...
Juntou A com B e sabia que Chico, aquele auxiliar de almoxarife, que comia comida fria e passava todo o tempo estourando bolhinhas, não poderia ter escritos versos tão singelos como "seu cabelo dourado que reluz como ouro ao sol; branco sorriso e o canto de um rouxinol." Ele nunca escreveria algo assim.
Gilda passou a observar Chico mais de perto. Até conversava com ele mais vezes, e um dia convidou-o para almoçar. Começamos a achar que o plano estava saindo melhor que o esperado. Mas assim que pôde, a bela Gilda deu o bote. Seguiu Chico até a esquina onde eu lhe entreguei a quarta carta.
E foi assim que ela me encontrou. Me seguiu até em casa e esperou que eu saísse para invadir. Remexeu minhas gavetas, onde encontrou a foto dela. Chico havia me emprestado para que eu fizesse um retrato. Ela encontrou meus poemas para ela e achou também a minha carta.
Foi assim que entrei na história de Chico e Gilda.
Chico só queria amar Gilda e Gilda só queria alguém que a quisesse. Eu quis Gilda assim que vi aquela fotografia e escrevi a carta para mim, só para desabafar a minha angustia por estar apaixonado pela Gilda que pertencia ao Chico. Eu queria ajudar Chico, não podia ver um coração apaixonado tão aflito. Quando cheguei em casa encontrei Gilda me olhando manhosa e essa foi a ultima vez que pensei em Chico.

Foi como um estalo. Um raio caindo outra vez na mesma árvore. Chico teve uma ideia e uma lâmpada de luz amarela acendeu-se sob sua cabeça. A lâmpada iluminou o quarto dos pais de Chico. O pai de Chico era militar. Morreu de cirrose sem honras por ter desertado. Deixou para ele uma mãe doente, algumas dividas, e um 38.
Chico abriu a gaveta onde há dez anos guardava sua herança. Há meses Chico imaginava uma forma de arrancar de seu peito aquela dor tão dilacerante que nem ele conseguia compreender. A ideia de jerico ele já teve, só faltava a coragem de fazer.
Eu abri a porta e dei de cara com o revolver do pai de Chico apontado para o meu nariz. Gilda saiu distraída da cozinha, faceira como sempre perguntando quem era. Quando viu Chico armado e chorando correu para perto de mim. Na minha frente como um escudo. Chico ficou confuso mas estava disposto a matar os dois. Pensava que era a única forma de se livrar daquela dor.
Chico não era muito de pensar, mas ultimamente pensava muito nisso. Por isso puxou o gatilho e nós todos ouvimos um clic. A arma não disparou.
Gilda caiu desmaiada
Eu caí de joelhos
Chico caiu numa gargalhada de dar dó.
Ficou olhando a arma e rindo. Depois chorou. E foi um riso cheio de lágrimas.
Chico não era de pensar mas acho que pensou que a arma não estava carregada. Eu também pensei. Ele apontou a arma para o próprio coração. Eu não ouvia o que ele dizia. Estava tonto. Só ouvi o tiro depois o baque do Chico no chão.
Depois Gilda desmaiando outra vez...

5 comentários:

Valter disse...

Pooooora!!!!! Muito massa biazuuudaaaa

Thiago Quintella disse...

Sensacional esse conto!! é um excelente roteiro!

Thiago Quintella disse...

Poderia entrar num festival de cinema!

Migule disse...

Menina!!!!!
da um filme mesmo!!! muito bom!

Anônimo disse...

Muito bom bê!!!!!!!