Quem nos quer

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Das ilusões de Sebastião

Fazia tanto calor. Sebastião estava aflito. Suava frio. Mas não percebia o sol entrando pelos poros de sua camisa preta. Mas por que escolhera aquela camisa logo naquele dia? Camisa preta aumenta ainda mais o calor. Isso não passou pela cabeça de Sebastião. Certas coisas simplesmente não passam pela cabeça dos apaixonados.
Giovana!
Suspirava seu nome desde que teve certeza que era ela. E teve certeza no primeiro momento em que a viu. Era ela, Giovana!
Conversavam muito. Mas nunca se viram. Como poderia estar apaixonado por alguém que nunca viu, alguém que nunca habitou em seu olhar, só seus sonhos, seus pensamentos, devaneio?
Sequer ouviu sua voz, era convicto de sua doçura apenas por suas palavras. Como eram doces aquelas palavras... aquela escrita reticente, a fonte em temas infantis, às vezes letras cursivas, mas sempre vermelha a letra. Nenhuma foto. É engraçado como a modernidade aproxima ao mesmo tempo em que afasta. É engraçado.
Sabia que ela era da mesma cidade. Por isso andava atento a procurar nem ele mesmo sabia o que. Procurava a imagem que tinha dela em sua mente. E era linda! Não. Nunca encontraria aquela imagem. Provavelmente por que habitava unicamente sua imaginação. Do contrário, como alguém poderia ser tão linda?
Conversavam horas. Ele sabia, tinha que fazer perguntas mais diretas, mais práticas, mais objetivas: “Onde você mora”, “você tem namorado?”, “Se casaria comigo?”...
Mas na hora, não pensava em nada. Tinha o bloqueio mental dos enamorados. Estava mais interessado em saber de sua cor predileta, “Que flor você mais gosta?”. Preferia imaginar seu sorriso ao ler qualquer bobagem que ele dizia. Como devia ser gostoso aquele sorriso. Sua imaginação pregava-lhe peças, podia ouvir o sorriso a lhe fazer cócegas benignas nos ouvidos.
Depois passou a temer a verdade. E se ela não existisse assim, como ele imaginava?  E se for completamente diferente? Com-ple-ta-men-te?
Não poderia suportar. O que era melhor (ou menos dolorosos), um amor platônico, ou um vazio sem-amor?
Dúvidas. Estava decidido a não procurá-la. Helena inalcançável, para ele ela seria.
Sim, o amor injustiçado, o mais belo, o mais profundo, poético, lírico e por isso incompreendido amor. O mais absurdo, o mais proibido... Assim seria.
Foi num dia de verão. O sol estava quente como agora. Ele tomou o ônibus para seu primeiro dia de trabalho. Funcionário publico!
Sentiu um cheiro doce e cítrico no ar. Sakuras! Sorriu. Lembrou-se de uma amiga distante a quem contou de seu amor indefinido. Ela dizia não entender como se pode amar alguém de quem nunca sentimos o cheiro... “O amor vem dos sentidos”. Ela dizia.
O amor vem dos sentidos. E esse cheiro lembrava ela.
Giovana!
Naquele momento todos os seus sentidos se confundiram. Ele a viu, não sabia.. talvez tenha visto. Oh, uma miragem!
Teve certeza, como pó de estrelas nos olhos. A rainha Mab o visitou, deu-lhe o sono tépido dos embriagados e ele adormeceu, no banco do ônibus, ao lado de seu amor.
Despertou e ela não estava mais lá. Só seu perfume. Só a certeza.
Giovana!
Era ela, enfim, sem procuras, era destino? Era ela.
Por duas semanas conseguiu conter-se. Era loucura. Não poderia ser. “Não poderia ser!”. Fez qualquer menção sobre sua desconfiança quando falaram-se novamente às escuras.
Conversaram horas noite à dentro, e ele nada disse, como se nada acontecesse.
E ele pensava se ela não havia sentido sua presença também...
Duas semanas com ela ao seu lado. Ombro a ombro. Tocando-se. Certa vez houve um “Bom dia”, sorrisos. Nada mais.
Era hora de decidir-se. Amar uma ilusão ou saber o que existia além de sua imaginação. E se não fosse ela? E se ela não existisse? Não suportaria... Suportaria?
Decidiu-se.Aquela camisa preta não o incomodava. O sol a pino também ele não percebia. Subiu no ônibus para seu destino. Ofegante, tentou respirar fundo. E se ela não existisse? Suportaria?
Ela estava lá. No mesmo banco de sempre, com a mesma expressão plácida a contemplar a paisagem urbana da janela empoeirada.
Sempre lá, sozinha, como se a guardar o lugar. Seu lugar.
Ele foi a sua direção. Não podia hesitar. Não hesitou. Estava decidido. Arriscaria tudo. Suas divagações, seus devaneios... Pôs-se firme em seu olhar, sorriu.
- Olá, você sabe quem eu sou?
- Sei! E ela também sorriu...

(etc e reticências...)

9 comentários:

Éverton Vidal Azevedo disse...

Adorei. Eu nao ia ler, mas resolvi ficar mais um pouquinho e valeu a pena. Nessa "Idade do chip" quem nunca viveu uma coisa pelo menos parecida, pelo menos parecida com o início do texto rs?

Bj.

Augusto Dias disse...

Muito bom meu bem, como sempre.
Beijinho!!!

Alan Félix disse...

Tem um selo pra você no meu blog.

Abraço!

R. disse...

Tem um filme, chama "500 dias com ela (500 days of summer, caso queira baixar - hehe)" e tem uma cena em que a tela se divide e mostra como as coisas acontecem na expectativa e na realidade. Acho que posso dizer que seu texto me lembrou o filme, principalmente no que diz respeito à expectativa.

Bjs!

Bia Monteiro disse...

Oiii Xará...
Qto tempo, neh
EStive ausente
Mas aos poucos eu tô voltando...
Adorei o texto...
Bju carinhoso
=)

Rubinha disse...

Oi flor!
Ta rolando um sorteio lá no blog! Não deixe de participar! Bjinhos!!

http://causaeestilo.blogspot.com/

Deco Hoppus disse...

ah!

quantas histórias hein??

quem sabe eu não conte alguma das várias que já passei...

menina sumida...

cadê tu tatú?

ah e posta no histórias de gu também..

saudades...

Kiara Guedes disse...

Nossa! Fazia muito, mas muito que não vinha por aqui... Me atualizando de vc. Bjs, meus.

Deni Maciel disse...

Seu post mto revigorante e interessante.
parabens
e venho tbm dizer ou melhor
desejar um ótimo ano novo
uma passagem d ano feliz e unica..
q 2011 seja bm melhor q 2010
e conquiste o q desejar..
ou q adiante os processos pra essa conquista.
abraços e até um dia.

o
www.bocadekabide.blogspot.com
agradece o carinho *-*