Quem nos quer

domingo, 25 de outubro de 2009

A Balada do vinho chileno


Deixaram o vinho aberto. Lentamente o doce néctar de safra 1984 apodrecia e quando fora encontrado, naquele apartamento na Barra junto aos corpos, já estava mais avinagrado que o sangue daquelas veias.
Quatro dias depois dos assassinatos, ele ainda jazia ali em cima da mesa, mesmo depois do caso arquivado.Era o ano de 2004, logo, 20 anos depois da colheita das uvas.
Era um vinho tinto chileno de fabricação arcaica, de marca tradicional. As uvas foram pisadas com pés gentis e o processo de fermentação era lento e deliciosamente complicado. Raro! A única palavra para denominá-lo. Era um vinho raro.
Por 8 anos manteve-se intacto na adega rural de seus fabricantes (alquimistas?!). Esteve ao lado de outras safras tão raras quanto ele. Safras de 73 que lubrificavam a revolução.
Após 8 anos, finalmente fora manuseado e levado ao mercado. Leiloado junto com móveis e jóias antigas de uma família decadente. 1984 rendera sua última safra e aquela era sua última garrafa de vinho tinto suave.
No Brasil chegou de avião em 1999, na bagagem de mão de uma velha madame chilena de nariz empinado e seus 5 filhos doutores.
Tanta pompa não disfarçava bijuterias descascadas, nem quinquilharias e bugigangas que balançavam e também a pele flácida daquela senhora balançava e também o vôo na segunda classe balançou um bocado... Balançou tanto que deve ter sido um dos fatores que causaram o ataque cardíaco fulminante na pobre senhora. Morreu ali, no aeroporto mesmo, abraçada a sua valise que trazia seu segundo bem mais valioso. A garrafa do vinho raro de 1984, comprado em 92 alguns meses antes de sua fortuna partir, junto com um marido infiel e tão cardíaco quanto ela.
Morreu três meses depois de deixá-la na miséria, o desgraçado!!!
O enterro de Maria Dolores de Santiago teve de ser no Brasil mesmo, na verdade ela sempre soube que aqui que morreria. Não sabia porque, mas sempre soube. Sem luxo, só uma gaveta onde foi depositado seu corpo flácido e que terá de ser esvaziada depois de 8 anos.  
Na leitura do testamento em castelhano, alguns mimos e bobagens para os filhos mais novos, dívidas e as quinquilharias que valem menos que as taxas alfandegárias para trazê-las de Santiago, como alguns armários de madeira de lei empestados de cupins e livros raros, mas velhos.
O primeiro bem mais precioso da velha madame era seu filho mais velho Diego. "Tudo para Dieguito", dizia a matriarca aos empregados, orgulhosa de seu primogênito.
Diego formara-se médico na Califórnia. Seus irmãos, arquitetos, engenheiros, bacharéis em artes, nenhum advogado para evitar a derrota financeira da família.
"Para Dieguito", prosseguia o testamento, "meu bem mais precioso". E para Diego ficou a garrafa devinho tinto, safra de 1984. Para Diego e seus vícios...
Diego não bebeu do vinho na garrafa como previram seus irmãos, preferiu beber cachaça brasileira e perdê-la na jogatina (seu mais recente vicio).
 Duas semanas depois da morte de sua mãe, Diego vagava bêbado com uma legítima 51, ainda em seus tempos de "boa idéia" (porém marginalizada e nem um pouco internacional). Trazia a garrafa debaixo dobraço e a cabeça na bela morena que conhecera no bar. O tapa que levara no meio das fuças ainda ardia. Diego viu a luz, era uma luz branca, fria, e ficava cada vez mais próxima, mais próxima... A luz apagou, e agora barulhos estranhos e dores. Como médico Diego constatou: morreria. E morreu.
O velho vinho agora pertencia a Luis Cabral neto, especialista em pôquer, estelionato e agiota nas horas vagas.
Luis ganhou a garrafa de Diego numa honesta partida de bilhar. Foi uma noite de sorte. Andou pelo centro da cidade vadiando como o vagabundo que era com a rara garrafa de vinho numa mão, nem dando muita importância a sua importância. Na outra mão trazia algo mais valioso em sua opinião: meio quilo de erva pura e da boa, legítima inglesa (scank). Venderia a um playboyzinho da Pituba por 1000 pila.
Ia, mas não deu. Enquanto perambulava serelepe topou com a gang de seu arquiinimigo Rubinho ferrugem que já o havia jurado de morte caso cruzasse com ele de novo. Rubinho ferrugem era dono dopedaço entre os Barris e a Lapa, mas por azar de Luis, o ferrugem e sua gang   estavam fazendo ronda pela Piedade procurando algum otário para espancar. Foi realmente muita sorte do Rubinho.
Luis levou a maior sova, mas morreu  afogado quando tentou fugir pela Lapa, desceu o vale dos Barris e caiu no Dique do Tororó. Levaram 4 horas para emergir o corpo inchado do rapaz. Rubinho assistia tudo pela tv rindo como uma criança que acabou de fazer uma artimanha. Ele colocou a garrafa de vinhochileno na estante e planejava a comemoração de seu feito: Uma noitada daquelas no melhor motel da cidade com Dalila, sua namorada. A galeguinha de 17 anos disse certa vez que já estava quase pronta pra dar, e que teria de ser num lugar bonito e romântico. Feito. Rubinho apressou o preço do melhor motel da cidade, o mais caro. O carro emprestou do Chico, primo e amigo velho dono de oficina. Ele conseguiu um Corsa 2003 vinho, com bancos de couro e ar condicionado, o dono só ia buscar na sexta-feira.
Tempo o bastante para Rubinho convencer a namorada a cabular as aulas noturnas de supletivo e ir com ele ao "lugar mais romântico que o dinheiro poderia comprar", pelo menos por uma noite.
Tanta dedicação por um cabaço tinha uma explicação: Dalila esnobava Rubinho com tanta veemência no passado que fazia ele se sentir um nada. Rejeitado pela menina mais metida e gostosa do bairro, Rubinho decidiu entrar pros "negócios da família", ganhou a vida, fez dinheiro, reformou a casa da mãe e o cabelo. Agora Dalila morria de amores por ele. Namoravam há três meses.
Tudo pronto para a noitada. Rubinho se aprontava para buscar Dalila na saída da Lapa com o Corsa cor-de-vinho. Mas alguém ligava insistentemente para seu celular.
Se Rubinho não atendesse, fugiria da emboscada que lhe aprontaram. Armando, primo de Luis Cabral neto desafiara Rubinho para um pega na Paralela, alegando que se ele não fosse provaria ser um covarde, "sem mais ninguém, men, só eu e tu na pista, sem crocodilagem. Otário!", e assim marcaram às 3 da manhã em frente ao Extra.
Rubinho era traficante, mas era honesto e foi do jeito que combinou, sozinho, sem a gang, só levou a Dalila para torcer por ele e jogar o lenço no chão dando a partida que nem ele via nos filmes de Marlon Brando.
Rubinho chegou com o Corsa 2003 vinho emprestado de seu primo Chico na avenida Paralela às 2 horas e 45 minutos. Não viu uma santa alma e desceu do carro para checar os pneus. Abaixado e de costas o traficante honesto não viu quando Armando apontou a arma para sua nuca. Rubinho morreu com um tiro na cabeça e dois nas costas na frente de Dalila. A galega viu quando Armando o emboscou, mas não achou prudente se envolver.
Os tiros chamaram a atenção dos seguranças do Extra que chamaram a polícia. Foi uma perseguição curta e Armando fora preso com Dalila como cúmplice.
Rubinho não tinha herdeiros por isso a casa ficou fechada por um ano até as chuvas de outono, quando a Conder decidiu demoli-la, pois estava em área de risco. Todos os moveis e pertences de   Rubinho, inclusive a garrafa de vinho tinto chileno da safra de 84, descuidadamente guardado em cima da estante ao lado da televisão.
A o vinho foi posto numa caixa com outras cachaças e levado ao deposito da prefeitura para leilão.
Porém, quem se interessaria pelos pertences de um traficante mediano? Rubinho e seus pertences foram burocraticamente esquecidos.
Quatro anos esquecido dentro de uma caixa, ficou o vinho tinto chileno raro.
Oscar dos Santos Pereira, 24 anos, estudante, michê e segurança de boates nas horas vagas. Porte atlético e QI com dois dígitos (um bom partido!).
Oscar também era amante (por alguns mimos) de Marta Almeida de Albuquerque, casada, funcionaria pública, concursada, mas uma função muito definida. Passava a maior parte do tempo no depósito. Era adepta de pequenos furtos e só depois de quatro anos decidiu fuçar as coisa de Rubinho. Abriu primeiro a caixa com o vinho chileno que logo fez tilintar uma idéia em sua mente pervertida.
Marta acendia a última vela do castiçal em cima do bar quando tocaram a campainha. Era Oscar, com um sorriso manhoso. Ela o agarrou pelo colarinho da camisa de seda   amarela (presentinho de outra amiga) e o beijou puxando-o para dentro.
Riram e Marta abriu a garrafa de vinho chileno. O raro vinho foi servido a Oscar numa taça de vidro para chope. Marta bebericava o vinho curtindo o sabor leve e doce enquanto Oscar sorveu o liquido num só gole como se fosse um trago de pinga qualquer.
Marta preparava-se para servir Oscar outra vez quando ouviu o ruído da chave destrancando a porta. Seu sangue gelou.
- Zeca?!
- Sua desgraçada, eu sabia.
- Não!
Cinco tiros foram disparadas naquela noite no bairro da Barra. Quatro saíram da arma de Zeca. Dois atingiram Marta no peito e na barriga. Um atingiu a parede e o outro matou Oscar depois de quatro horas de hemorragia.
Zeca se atirou do 8° andar do edifício onde morou por dez anos com Marta, sua primeira namorada.
O segurança do bar atingido acidentalmente quando tentava apartar uma briga, foi internado com estilhaços de bala no abdômen, levou alguns pontos, mas passa bem.

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Fervam queridos!!!

3 comentários:

Valter disse...

você tem talento pra roteiro.. vi essa história como um curta, assim bem rápido.. na parte que o cara morre e tal e a Dalila escrota!!!!
Mmmmmmmmmuuuuuuuuiiiiitttttooooo bala biazudaaaaaaaaaaaaa

meus instantes e momentos disse...

passando para te desejar uma linda semana.
Maurizio

*vc tem talento, com certeza.

Deni Maciel disse...

sempre minucioso e bem conciso.
o//
eu fiqquei meio bebu só d ler kkkkkkk
vinhos docesss
hummmmmmmmm

abraço
ótimo fds imendado.
=]
com bruxas e finados.
ou seja..o Jason Vorhees numa vassoura...
ou a hebe camargo fazendo uma poção magica pra rejuvenescer...
...
em breve:
Pastormentado e o video game =O