Quem nos quer

terça-feira, 2 de março de 2010

Conto gonzo... sobre as putas de coração mole da montanha

Sempre tive curiosidade sobre a vida das putas. E nem é por causa da Joey, essa minha amiga que queria ser mulher-dama. É só uma curiosidade mórbida. Dizem que toda mulher deve ser uma puta na cama e uma dama na sociedade... Eu sou... bem.... não importa o que eu sou.
A ladeira da montanha sempre me instigou. Adoro pegar ônibus que passem por lá. Faço questão de pegar o caminho mais longo só pra passar por lá, à noite de preferência.
Lembro de um dos meus padrastos, Neif, foi o penúltimo, que me dizia que lá era o maior puteiro de SSA.
Neif dizia: “Guria (foi dele que eu peguei esse sotaque engraçado), eu nunca vi tanta puta junta”.
Eu sempre quis saber como é a vida de uma puta. Joey me dizia que queria ser puta por que é o melhor trabalho do mundo: “Imagine, fuder o tempo todo e ainda ganhar por isso...”, Ser puta era o sonho dela e eu não entendia. E se ela tivesse que trepar com um cara gordo, que não gosta de tomar banho. Algum velhaco caquético fedendo a mofo? Imagina, fazer um boquete num pau todo encebado, eca!!
Mesmo assim minha imaginação fluía quando ouvia as histórias de Joey, que nunca teve coragem de se vender, ela dava de graça mesmo, pelo menos no tempo em que éramos amigas. Faz uns anos que não a vejo.
Eu trabalhava numa loja de artigos esportivos lá no comercio. Pegava ônibus todos os dias no pé da ladeira. Um dia fui inventar de subir a pé. Eu precisava, era algo quase instintivo, sabe? 
Eu precisava subir lá e ver o que diabos tinha naquela ladeira.
Eu sempre olhava o máximo que dava pela janela do ônibus. Pena nunca tinha engarrafamento na ladeira da montanha, sempre tinha depois, na Carlos Gomes, mas na montanha, o transito era livre.
Pois bem, tomei coragem e subi mesmo. Quem sabe eu encontrasse a Joey por lá. Não saberia se ficava orgulhosa por ela ter tido coragem, ou mandava uma carta pra mãe dela dizendo que sentia muito... O fato é que comecei a andar em direção a ladeira. Já tinha cometido algumas contravenções por conta da minha juventude transviada, mas assim que pus o pé para dentro da curva que subia a ladeira, todos os olhos do ponto de ônibus se voltaram contra mim. Todos já haviam me condenado antes mesmo da acusação: PUTA.
Não dei muito ibope, continuei meu caminho desbravador.
No começo da ladeira não tem nada. Só umas casas velhas e vazias, ocas. Mais acima sim, tinha luz. Luz branca, amarela, mas eu tava mais interessada era na luz vermelha. Eu queria colocar uma lâmpada vermelha no meu quarto, minha mãe não deixou dizendo que luz vermelha era coisa de puteiro.
Continuei a subir. Eu já tinha visto as nuvens, ordenei que o céu não desabasse enquanto eu não chegasse em casa, mas, quem disse? O diabo da chuva me pegou de jeito no meio da ladeira de modo que descendo correndo ou subindo voando, nem Jesus Cristo com um guarda-chuva daria jeito d’eu não virar um pinto molhado.
O jeito era subir. E fiz. Passei, enfim por uma porta aberta. Era um casarão antigo desse coloniais. A ladeira da montanha é cheia deles. Tinha as luzes acesas, não luzes vermelhas. As paredes descascando uma tinta que lembrava azul, mas não dava mesmo pra ter certeza. Ouvi ruídos, eram risos, depois cheguei mais perto, eram gritos. Fiquei ainda mais curiosa. Que porra eu tava fazendo lá? Fui olhar. A chuva só piorava. A mulher gritava aos mortos. Eu, cada vez mais desesperada. Já era quase medo.
Daí o céu caiu de vez. “Puta que pariu, fudeu a Bahia e os três reis magos!”, parei na calçada embaixo da marquise do puteiro.
Um filho da puta bêbado chegou da janela e quase me deu um banho de cerveja choca. “Ô rapá”, o cara olhou pra baixo meio tonto, deve ter pensado que estava tendo um contato direto com qualquer ET. “Foi mal minha pequena”, pequena é o escambau, sai de debaixo da janela, mas o estrago já tava feito. O veiaco com sotaque carioca me delatou e não deu nem dois segundos já tinha meia dúzia de puta na janela querendo saber da perdida.
“Tá perdida minha linda?”, eu nem sabia o que exatamente estava falando comigo, parecia um cara sem saco e de salto. Eu só sorri, amarelo, mas sorri, só os cães mostram os dentes em sinal de ataque. “Ô, coitadinha, tá aí nessa chuva...”, nunca tinha visto uma puta com dó.
O pior, e o que eu não esperava aconteceu. Senti uma mão gelada. Era uma mão grande, maior que a circunferência do meu braço (o que não é grande coisa), me deu um puxavão pra dentro da casa-bar-puteiro. Fui parar lá dentro cheia de uma vergonha puritana que eu não sei de onde saiu, mas que ainda bem nunca mais se manifestou (quase rezei!).
Tentei relaxar e ser o mais natural (possível) na presença daqueles bem aventurados anfitriões.
Dois bêbados, um alemão hippie e cinco putas, sentados numa mesa tomando cachaça, parecia até um quadro de muito mau gosto. Ficou pior quando eu, olhando insistentemente para as nuvens, como se implorando para que elas dessem um tempo, fui puxada pra mesa e logo me encheram um copo de refrigerante. “Beba aí criança”, a diaba loura com as unha maiores que as do Zé do caixão, me tratava tão maternalmente que poderia ser comovente, se não fosse tão bizarro. Odeio refrigerante, não tomo nem a pau (só gosto de Coca-Cola, mas coca não é refrigerante e não era coca o líquido gasoso no copo de requeijjão). Como dizer isso sem aparentar estar me oferecendo para tomar um porre com eles??? Deixei quieto. A noite ia passando, meu horário de chegar em casa também. A conversa finalmente começou e a chuva, neca de catibiriba.
“Você não vai beber seu refrigerante coração?”, quase a chamei de mãe. “Não gosto de beber sozinha”, voltei a ser o que eu era. Tava doida pra dar uns goles numa boa cerveja gelada, pra curar a tensão.
Alguém leu meus pensamentos, ninguém me ofereceu, um negão alto e parrudo, abriu uma lata de Skol, despejou metade num copo de extrato de tomate e pôs na minha frente com o sorriso mais branco. Eu me fiz de desentendida, olhei pra trás e dei de cara com a bunda da Tiazinha estampada no pôster da Bhrama.
Já tinha feito cerimônia o bastante, peguei o copo, olhei bem para o líquido amarelado, só dois dedos de espuma, profissional! (Mesmo assim odeio espuma). O primeiro gole desceu com dificuldade, todos estavam me olhando, a minha mãe postiça meio horrorizada, os bêbados olhando como lobos cercando a caça, o alemão com a mesma cara de taxo no balcão, sem dizer nada.
Depois emputeci de vez (no bom sentido). As gargalhadas começaram no terceiro copo, os gritos continuavam sabe-se lá de onde, tive um surto de confiança nos meus novos amigos e baixei a contar o motivo que me levou a fazer aquele tuor pela montanha.
Do nada, ou do meu relato, surgiram reações diversas. Os bêbados olhavam pra putas, as putas olhavam pra mim. A matriarca de olhos de catarata marejados principiava um choro, e eu, em meio as gargalhadas, nem me tocava do desatino de chamar de putas, as putas.
“Não tem só puta na montanha não, coração”, foi só o que me disse.
Foi aí que eu reparei na cagada. Desconversei. “É, eu sei”.
A chuva passou quase que instantaneamente, foi minha deixa pra sair de fininho. Sai pensando em Joey. Faltava coragem, vergonha passava longe.


[Publicado no semprechove há um tempão...]


Bia Ferreira

12 comentários:

Valter disse...

adoro esse conto Biazudaaaaa

Luh* disse...

Adoro, muito legal tu falar sobre este tema!
beijos

Dil Santos disse...

Oi Bia, tu tá bem?
Menina, que tour heim? Adorei ahahahahah
E as ladeiras de Salvador são uma coisa né? rs
Ô querida, que bom que te inspirei mais um pouco, rs
Bjo
:)

Leoa Wilde disse...

Biaaaa.
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Que imaginação hein?? ou será que vc realmente esteve lá, aonde eu nunca tive coragem nem de subir a pé?!?!
Outra coisa, ainda quero ser puta, mas não na montanha né meu bem??? Aquilo ali não é um puteiro digno de minha presença iluminada, e não acho que hoje em dia exista puta de coração mole ali!

Muito bom relembrar dos meus sonhos e minhas loucuras de adolescente!

A.S. disse...

Bia... é uma delicia ler-te!...


Beijos
AL

Luciana P. disse...

Olá, muito interessante o text, e mais ainda o seu blog. Gostei! Parabéns! Beijos e bom final de semana!

Carlos Medeiros disse...

Curiosidade é fogo.

Deni Maciel disse...

há um tempão ?
como a maioria das coisas parecia tão atual.
e sempre vai ser.
viva a curiosidade haha fomentando fatos agradeveis ou não.

dia da mulher...amanhã farei coisas só d mulher.
vou lavar louça
vou escovar o cabelo / depois os dentes
vou falar o dia todo ¬¬
vou assitir Viver a vida
vou pintar a unha
vou parar por aqui se não eu me revelo
ui***

abraços e ótima semana!

Sylvio de Alencar. disse...

Realmente foi uma puta cagada o papo..., mas, é a vida.
A fala da matriarca, foi de cortar o coração.

Bonita escrita.

Ferdi disse...

Que conto ótimo.
Me fez lembrar ddo meu eu aos 7 anos que gostava de passar pela Av. Industrial pra ver travestis.

Lah disse...

heheh qualquer dia desses eu vou visitar um "puteiro" morro de curiosidade, minha mãe ja foi, com meu pai, para tomar cerveja e comemorar aniver de casamento (isso é meio estranho mas eles fizeram)

ela disse que qualquer dia desses a gente vai, ela tem uma amiga que trabalha num e etc.

se der na telha de ir eu escrevo como foi a aventura...

hauhuahauha


beijocas

feliz dia da mulher!

Lah disse...

heheh qualquer dia desses eu vou visitar um "puteiro" morro de curiosidade, minha mãe ja foi, com meu pai, para tomar cerveja e comemorar aniver de casamento (isso é meio estranho mas eles fizeram)

ela disse que qualquer dia desses a gente vai, ela tem uma amiga que trabalha num e etc.

se der na telha de ir eu escrevo como foi a aventura...

hauhuahauha


beijocas

feliz dia da mulher!