Quem nos quer

sábado, 5 de setembro de 2009

Da arte de amarrar os sapatos...

Odete saiu preocupada de casa. Não sabia exatamente com o quê. Sentia uma angustia, algo a prendeu na cama aquela manhã. Estava atrasada, mas não era isso que a preocupava. Na verdade, nem tinha pressa. Só sentia-se estranha.

Estranha se sentia sempre. Mas naquela manhã estava estranha... “Estranho”, pensou.

Andou o meio quilômetro de casa ao ponto de ônibus sem alardes. Não havia ninguém na rua para cumprimentar.

No ponto de ônibus, sentou-se, remexeu a bolsa à procura de um livro. “Droga!”, disse baixinho com sua voz de mosquito. Esquecera de que trocou de bolsa, deixou seu livro na outra... “Acho que vou colocar um livro em cada bolsa, parecia a melhor solução, pelo menos funcionava com os absorventes. Das chaves, ela já havia desistido, fazia com elas, como todo ser normal, colocava-as debaixo do tapete da porta mesmo. Pelo menos nesse aspecto Odete se sentia normal.

Ficou sentada sem saber para onde olhar. Faltava-lhe o livro, não sabia onde esconder-se e aos olhos. Decidiu olhar para o horizonte de onde vinham os ônibus, carros... lembrou-se que estava atrasada. Não sabia o próximo horário. Começou a pensar quanto tempo poderia ficar ali esperando, e sem um livro(!).

De repente notou que estava sendo observada. Havia vários passageiros de um ônibus parado a sua frente olhando para ela. Nunca desejou tanto um livro, um jornal, um guarda-chuva, qualquer coisa. Com a cara enterrada em seus romances “água com açúcar” de banca de revista, não percebia o quanto aquela situação era inquietante. Odiava ser observada. Todos aqueles olhos estranhos metralhando-a, dessecando-a, advinhando-a.

Sentiu uma quenturinha na face e os olhos não queriam parar em lugar algum. Decidi olhar para os sapatos, cronometrar os movimentos nervosos dos pés. Aquilo a distraiu.

Mergulhou em devaneios, pensou em sua preocupação. O que a preocupava? Não havia nada de anormal. Sua vidinha pacata ia na mesma. Acordar, trabalhar, almoçar, trabalhar, ser gentil com o chefe, trabalhar, ir pra casa, comer miojo, ver jornal, dormir, ter pesadelos ou sonhos estranhos, acorda... Seis dias por semana. No domingo era acordar, ver tv, olhar pela janela, ver tv, comer macarrão, receber um telefonema da mãe, ver tv, dormir, ter pesadelos ou sonhos estranhos, acordar (é segunda-feira).

A neblina densa de seus pensamentos se dissipou e ela reparou que continuava olhando para os sapatos, as não os seus.

Era um par de sapatos de camurça preto, ou algo assim. Tinha longos cordões da nilon. No pé esquerdo, um laço de engenharia infantil, muito mal feito. No direito, o mesmo laço desfeito.

O homem a seu lado cruzou a perna direita sobre o joelho esquerdo e atou novamente o laço mal feito com um engenho destro de um menino de quatro anos. Seguia arrisca e sem qualquer sofisticação o maçante Dobra-passa-puxa.

Odete riu. Abriu um largo sorriso e pensou em não conseguir controlar uma gargalhada.

Os cabelos longos estavam presos por um elástico, todo ele arrumado e trançado sobre o ombro direito. Esquecera de por um elástico na ponta da trança. Pensou que em poucos minutos seu penteado poderia estar desfeito. Tomou as pontas do cabelo e passou a retraçá-las até o ultimo fio. Mas assim que libertava a trança sobre o seio, as pontas dos cabelos se contorciam e repeliam destrançando novamente... “que raiva, que raiva...”.

Já deveria ter passado pelo menos meia hora esperando aquele ônibus. O homem do cadarço desamarrado dessa vez cruzou a perna esquerda sobre o joelho direito e desfez o laço mal feito, refazendo-o com o mesmo desleixo. Odete observou seus movimentos patéticos imaginando as horas.

O homem tinha no pulso um relógio enorme e digital. Odete tentou ver as horas naquele relógio, mas só via o primeiro digito, 7.

Pelo menos não passava das 7...

Odete tentou olhar para o tempo. Tentou medi-lo pelo movimento das nuvens no céu. Perguntou-se em certo ponto, por que nunca usava relógios. Não gostava de relógios, simplesmente não os entendia. Como poderia existir algo mecânico para dividir o tempo? O tempo não pode ser dividido, ele sempre core inteiro. O tempo é sempre um só. E deve ter passado muito tempo nesse devaneio pois foi trazida novamente a realidade pelo cruzar de pernas do homem a desatar e reatar o laço mal feito de seu sapato pela terceira vez. Na verdade, ele repetiria aqueles movimentos débeis de dobrar, passar e puxar o cordão de nilon frouxo mais quatro vezes. Sete é um numero cabalístico.Odete gosta do numero sete, mas não viu nada de animador num homem que amarra os cordões dos sapatos sete vezes. Só era estranho. Pensou em se oferecer para ensinar o homem a dar um nó de verdade.

Novamente começou a sentir aquela sensação de preocupação. Num movimento automático, trançou novamente as pontas do cabelo.

Esperou exatos dez minutos e trinta e cinco segundos até o ônibus chegar. Parecia ter sido uma eternidade. Quando avistou o ônibus no horizonte, tentou ver as horas novamente no relógio de pulso do homem do cadarço desamarrado, mas desviou o olhar quando percebeu que ele a observava trançando as pontas do cabelo.

2 comentários:

Lila disse...

Eu sumi, né? Mas foi a exposição, que me comeu o couro.
Eu tô com saudade! Sonhei com vc e tudo.

:/

Vou dar um jeito de ir aí. Beijo!

Deco Hoppus disse...

Bia...

nem sei mais que opinião expressar sobre seus contos e causos...

é tudo tão perfeito!!!


ô saudades da época que eu escrevia algo assim (claro, não tão bom e bem elaborado como o seu).

Beijão.