Quem nos quer

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Conto de memória

Em minha infância éramos educadas para ser mocinhas comportadas. Saias com short por debaixo e bustiês para cobrir os seios insistentes. Afinal não queríamos dar margens à homens malvados que fazem "coisas" com meninas que não têm modos.
Aos 10 enquanto brincava de bola num terreno baldio conheci alguns desses homens malvados. Minhas amigas e eu corremos para o matagal que dava acesso ao campo mas fomos capturadas e molestadas. 
O short me protegeu e dificultou a acesso do meu agressor ao que ele de fato queria. Então ele apenas passou a mão e apertou meus inexistentes seios debaixo do meu bustiê e me soltou quando eu grite. Corri, chorrei por causa do susto. E me culpei. "O que eu queria brincando naquele lugar?".
É que somos educadas para não sermos vulneráveis ao estupro. Mas os homens não são educados para não estuprar. Então na minha lógica a culpa foi minha. Aquela era uma reação natural para qualquer homem que se visse com a oportunidade de pegar uma menininha. Eu é estava no lugar errado. Perigoso. Longe da vista de meus pais.
E assim também pensou minha mãe, pois assim que soube do acontecido me deu uma surra pra nunca mais.
Em minha infância éramos educadas para ser mocinhas comportadas... De tempos em tempos encontrava aquele homem e sentia vergonha e via ele se gabar com os olhos por já ter tido acesso ao meu corpo.
De tempos em tempos tinha que correr de outros opressores por estar no lugar errado, com a roupa errada, na hora errada. 
Aconteceu no fundo da igreja enquanto eu catava sebo de vela para passar na tábua de escorregar pela ladeira. Lembro dos dedos canoros daquele velho me segurando pelos braços e tentando me beijar. Mais uma vez escapei do meu destino iminente dando-lhe um chupe nos culhões.
Aconteceu alguns anos depois num beco, no carnaval...
Aconteceu tantas e tantas vezes. E sempre acontece em maior ou menor grau, de maneira grosseira ou mais sutil. Com toques sem autorização ou apenas palavras. Algumas até sem intenção de ferir. Cortejos, galanteios... 
Há alguns anos deixei de usar o short por debaixo da saia. E quando ouço um "gostosa" na rua me retraio e acelero o passo. Nunca sei se meu agressor vai se contentar em só dizer. Talvez ele queira provar também. 
Mesmo sabendo que a culpa não é minha, mesmo sabendo que eu não fiz nada para causar essa violência, o medo, a culpa me acompanham.. "eu devia estar de short", é meu primeiro pensamento. 


2 comentários:

Monjh - Senhor dos Muitos Nomes disse...

Sinto certo nojo de que somos criados pra pensar que, praticamente, homem DEVE estuprar quem sua roupa curta.

Uriálisson disse...

a mulher cresce pensando no "não devo fazer/agir de tal modo" em função de um comportamento errado,mas não seu,e sim do outro. Tem que se podar, recolher,ser sempre um alvo...é foda