Quem nos quer

domingo, 27 de novembro de 2011

Capítulo I - Dois sorrisos

Um sorriso misterioso e ao mesmo tempo cheio de uma despreocupada felicidade foi aberto naquela manhã. Ela fechou o livro e os olhos. Apertou os lábios. Apertou o livro contra o peito. Suspirou.
Ao abrir os olhos eu a observava. Ela me surpreendeu ao mesmo tempo surpreendida. Sorriu.
Eu não sorri. Em pânico, desviei o olhar.
Ela olhou para os pés. Triunfante, sorria...
Eu sorri, vergonhoso.
Nossos olhos mais uma vez se encontraram.
-Oi! Ela desafiava-me.
- Oi. Olá.. Nunca tive jeito com esse tipo de abordagem.
Ela levantou-se de onde estava sentada. E veio sentar ao meu lado.
Mencionei que estávamos num ônibus? O destino era a Capoeiruçu, uma comunidade em Cachoeira, na Bahia. O meu destino, eu não tinha nenhum. Precisava viajar, ver coisas, lugares novos, ficar sozinho.
Ficar sozinho. Lá estava ela ao meu lado. Logo no meu momento solitário.
- Posso me sentar aqui?
Ela já havia se sentado. Sorria abraçando o livro. Além do livro, um caderno de matérias, uma pasta preta. E nas costas uma mochila imensa.
Seu cabelo longo e castanho ostentava uma trança que começava no alto de sua cabeça. A trança pendia para o lado esquerdo e terminava num cacho na cintura. Ela não era alta nem baixa. Eu não sou alto. Sou o mais baixo dos meus irmãos apesar de ser o irmão mais velho.
Sua pele cor de jambo, típica das baianas do recôncavo, ostentava um bronzeado evidenciado nas marcas de biquíni nos ombros. A minha pele é branca e desbotada. Nunca vou à praia e se me exponho ao sol não me bronzeio, sou do tipo que fica vermelho e assado como um camarão.
Ela usava uma camiseta branca de alças finas de tecido elástico evidenciando os seios pequenos, a cintura fina e um pneuzinho um pouco acima dos quadris. Usava bermuda jeans até o meio da cocha e Havaianas.
Eu também usava Havaianas, bermuda jeans um pouco acima do joelhos e camiseta preta.
- Claro que pode. O que você está lendo?
- Acabei de ler, é fantástico! Ela virou a capa do livro para me mostrar "Lavoura Arcaica", de Raduan Nassar. - A narrativa é densa, eu li num tapa.. Mais uma vez ela abriu um largo sorriso.
Os olhos dela, grandes e castanhos, lembravam os olhos de uma mulher do oriente médio. Tinha sobrancelhas grossas que quase se juntavam acima do nariz. As pupilas líquidas, brilhantes, pareciam ter luz própria.
- Não conheço. Eu olhei para os meus pés e para os dela, virados para os meus. Tinha lido um pouco sobre linguagem corporal. Se "O corpo fala" estiver certo, isso significa que ela gosta de mim. Corei com esse pensamento e não tive coragem de levantar o olhar.
- É um ótimo altor. Ela se conteve quando percebeu meu desinteresse. pelo livro, é claro.
- Tenho lido coisas mais acadêmicas ultimamente. Continuei olhando para os pés, mas levantava o olhar furtivamente para o lado dela. Não via sua face, mas sabia que ela olhava para mim.
- eu também devia ler. Estou com um monte de livros acumulados para várias matérias. Mas sou assim, não consigo ler por obrigação. Ela estava virada para mim, com uma das pernas dobradas em cima do banco. Gesticulava enquanto falava e tinha a voz alta mas inexplicavelmente suave.
Eu continuava virado para frente, mas olhava para ela quando falava. Não diretamente em seus olhos. Mas não costumo olhar diretamente para os olhos de ninguém. Por isso tinha que ler aquela baboseira de linguagem corporal. Precisava de um emprego, e a área de gestão, na qual me formei, exibia um perfil mais desinibido. Como seria selecionado para um cargo de liderança ou para fazer recrutamento de mão de obra se não consigo encarar as pessoas?
- Eu sou Maria. ela estendeu a mão em minha direção num movimento rápido.
- Leandro. Eu olhei em sua direção e depois para sua mão estendida.
Apertamos as mãos e ela se inclinou para beijar meu rosto. Eu permaneci estático e fui beijado nas bochechas com toda naturalidade baiana.
- Você não é daqui né?
- Não.
Ela sorriu alto. - Eu percebi.
Fiquei envergonhado como se tivesse cometido uma garf. Mas isso acontecia constantemente. Não nasci na Bahia, sou carioca, mas não morei no Rio. Vivi em São Paulo durante a infância. A adolescência passei no Rio Grande sul. Estava há bastante tempo na Bahia para me acostumar com os beijinhos na bochecha a todo momento, mas não me acostumei.
- Sou carioca.
- hum. Para onde você vai? Ela parecia me avaliar. Olhava minha sacola de viagem e minhas roupas, tentando adivinhar meu destino antes que eu dissesse.
- Capoeiruçu. Vou visitar um amigo.
- Legal! Eu também vou pra lá. (...)


continua.

3 comentários:

Augusto Dias disse...

Meu bem ecreve muito bem!!!

Que orgulho!

Beijão!!!

Dil Santos disse...

Bia, tu tá bem?
Menina, amei, achei o máximo. Se fosse a alguns anos atrás, eu poderia falar que me via um pouco no Leandro, em relação a timidez, mas é claro, que hj eu superei e estou mais tagarela do que nunca kkkkkkkkkkk
Ai menina, tava relapasa tu heim? rs Abandona assim o povo, rsrs
Depois me add no msn
betosantos223@hotmail.com

Bjo menina

C.Q.C.M. disse...

Pois é, quando era criança era meio tímido, hoje em dia não consigo entender como algumas pessoas agem assim em situações banais como essa, claro que temos vergonhas, mas são em situações que nos expoem mais.

Gostei da história, quero ver o desfecho.