A aranha

 Parece que algo havia sido incinerado ali. Algo pequeno e redondo. Pouco maior que um inseto. Um rato, talvez. Formava um círculo perfeito. Talvez uma pedra ou pedaço de árvore. Não havia cinzas ou restos mortais, apenas a marca de fuligem negra sobre o chão vermelho. José olhou ao redor. Não havia nada além de aridez. Para qualquer lado que olhasse somente havia vermelho da terra seca, alguns arbustos ressecados e o branco azulado do céu.

Continuou sua caminhada lenta para lugar nenhum. Estava com fome e sede. Perdido continuava seguindo o norte de sua vontade. Mais à frente outra marca. Ainda quente e tão perfeitamente redonda como a última. Uma carcaça de animal se apresentava mais à frente. Teve um pouco de esperança, mas até a carne podre já havia sido roída pela natureza. Mais adiante outra marca. Ele acirrou os olhos procurando até encontrar outra marca. E outra mais ao sul. As marcas formavam um círculo de diâmetro incalculável naquelas condições. José só pôde concluir que era grande. Continuou sua jornada até finalmente encontrar uma sombra. Havia brisa ali e algo brotava do chão árido. Feliz, José se sentou e cheirou a planta verde. Não via algo vivo há dias. Sugou das folhas da planta as gotas de orvalho que ainda restavam. Pensou em comer uma folha, mas hesitou. Ainda ajoelhado viu uma haste cinza escuro saindo do chão mais à frente de onde estava. Parecia um poste com uma leve envergadura e... "pêlos", pensou assustado. Olhando ao redor outros postes peludos brotavam do solo árido em direção ao céu. Ele estava debaixo de sua sombra. Olhou para cima petrificado. A barriga de uma gigantesca aranha lhe servira de abrigo. 

O inseto pareceu nem notar sua presença insignificante, continuou imóvel. José tinha fome, sede e medo da morte. Mas não tinha medo de caranguejeira. Escalou o íngreme poste até o topo próximo à cabeça do bicho. Queria ver há quantos dias estava da vila mais próxima. Do alto da aranha parecia que dava pra ver o mundo inteiro. Além das vilas e da caatinga, além das cidades e morros arranhando o céu. O ar era pesado, mas o clima ameno e agradável. A aranha começou a mover-se para frente suavemente. Uma brisa fresca o acarinhava. Notou que entre os pelos da gigantesca criatura havia gotas de água que formavam pequenas bacias e a sombra dos pelos lhe trazia o conforto de uma floresta tropical.

Imaginou de que se alimentaria um animal tão grande e logo teve resposta quando avistou uma imensa teia entre duas rochas tão altas quanto seu animal de transporte. Tão grande quanto uma cidade inteira, a teia envolvia bois subnutridos, bodes e algumas galinhas. Uma onça e um lobo jaziam ressecados. Alguns mortos já há bastante tempo, outros, agonizando ainda.

A fome era grande e José viu uma oportunidade. Desceu sorrateiro pela perna da aranha. A teia parecia um quadro bizarro de morte. Viu uma ave mais próxima com aparência ainda fresca. Tomou cuidado para não se enroscar na teia pegajosa. A aranha sugava uma vaca distraída.

Com dois gravetos José ateou fogo numa pequena moita seca improvisando uma fogueira. Foi a refeição mais farta que teve em anos. A noite chegou rápido e o fogo se apagou. O cheiro de comida atraiu animais noturnos. José procurou abrigo novamente no alto da aranha. Ele era tão pequeno em comparação a ela, que era como um carrapato vivendo num cão. E assim passaram dias, anos... José colhia um ou dois animais frescos na teia, salgava e secava a carne no sol para armazenar. Bebia do orvalho preso nos pelos da aranha gigante e dormia protegido no alto do animal.

Vez ou outra se locomovia, mas nunca se afastavam da grande teia. Sua vida foi boa sendo um parasita numa aranha gigante. Um dia, bem velho e cansado demais para descer pela perna da imensa aranha, sentiu que sua hora havia chegado. Caminhou até a beira da cabeça do animal. Lá de cima, um precipício sem fim, atirou-se na teia e aguardou a natureza seguir seu curso.

Série de lendas inventadas - novembro, 2021

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